quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

De metamorfoses




..."Todo conflito é um estado, e todo estado ;e um tempo nescessário de se fazer algo, e em alguns momentos de não se fazer nada, exatamente nada de algo.
Porque por vezes, é preciso parar. Parar de pensar, parar de mover, parar de ter de ser e também parar de morrer. Faz parte da vida o repouso; faz parte da força o descanso; faz parte do tempo o acordo; da doença, o consentimento; faz parte do dia a tarde e as suas seis horas.
O entremeio da tarde e da noite. Quando o vento cessa seu sopro, os bichos procuram suas moradas e outros trocam de turno.

Porém, nesses sessenta segundos de entremeio, a vida suspende-se por um fio.
Cessa a sua própria respiração. E um quê de aflito perpassa a alma humana, que retorce e se paralisa em suas entranhas.

Assim são os momentos das grandes mudanças de estados atmosféricos, psiquicos e sentimentais. Por um segundo pára-se um ciclo e se começa outro.
É assim que entram nos homens as transformações e as suas diferenças.
Por um paralisar de engrenagens, mudam-se os rumos e faz-se um

tempo novo, orvalhado.
Pisa-se num outro quadrado e se redesenha-se toda uma vida..."







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quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Haití











J
á fui criança e a minha pobreza não está no meu corpo e nem na minha alma, porém,
... no seu abandono .









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domingo, 3 de janeiro de 2010

Sobre a gente






...
Cada um é muita gente.
Para mim sou quem me penso,
Para outros - cada um sente
O que julga, e é um erro imenso.

Ah, deixem-me sossegar.
Não me sonhem nem me outrem.
Se eu não me quero encontrar,
Quererei que outros me encontrem?













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quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

De esperanças


"Escolham o céu, levantem vôo, abram suas asas.Confiem na vida, mudem o tempo.Com a força bruta de quem percebe as dores de dentro.Escrevam histórias, procurem o bem nas pessoas,escutem as almas,acreditem em flores."
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sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

De Ilusões

Photobucket
Carol Watson

Saber não ter ilusões é absolutamente necessário para se poder ter sonhos.




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sábado, 5 de dezembro de 2009

De Ensaios

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Não escrevo o real. Nem tudo que se faz em palavras foi vivido. Tornar o real imaginável. Às vezes fica difícil separar o que me pertence e o que foi criado. Mas não quero uma verdade inventada. Não quero uma vida de palavras vazias que preenchem o espaço que eu mesma deixei. Quero a vida, justa ou não. Quero o caos, a turbulência, a dor. Quero o medo, quero a paz, o amor. Não quero transformar em vida o que foi palavra. Mas escrever em memórias as histórias que ensaiei.









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domingo, 22 de novembro de 2009

De espaços vazios





Tinha ela uma dor no peito constante, perene. Era acometida todas as noites, na hora em que mais precisava descansar. Os comandos do cérebro sobre o corpo, sobretudo o das suas pernas, eram dissonantes aos do coração, carente como criança assustada. Queixava-se a moça o tempo todo de uma ausência por ela própria sentida, uma mistura de oco, buraco no peito, saudade-de-não-sei-o-quê. Ou seria uma presença por ela imaginada? Que na verdade nunca existira? A dúvida rolava cama adentro, coração aos sobressaltos agravados por aquele ponteiro do relógio que nunca fora seu cúmplice. De concreto mesmo, só a imagem da falta. Porque ela mesma, (a falta) , nunca fora vista de fato, de corpo presente em seu quarto, tangível aos olhos, às mãos, silhueta exposta, à sua boca com sede de outra. Como será que então ela consegue soluçar por aquilo que nunca teve? Era tão absoluta a certeza que havia nascido para aquele sentimento! São as coisas do coração, disse certo dia uma amiga e confidente. Mentira. São coisas da cabeça dessa moça, ainda afoita por não conseguir diagnosticar sua doença diária: o amor.
Sim, aquele de espécie urgentíssima, patológica, viral, cego de nascença, aquele que não pondera, não se mede, que jamais pensa. Simplesmente se autocondecora e intitula-se digno e nobre só pelo fato de no mundo existir.
Mentira. Nobre é reconhecer seu papel - e ele, esse amor, é tão soberbo ao ponto de não se deixar diminuir diante do seu real tamanho. Invade a fronteira do real e do improvável vestindo o véu pontilhado do imaginário. E surge assim como um príncipe; rosas vermelhas em punho. Dá para acreditar nele? Ela diz que sim. Efeito da
doença tão mesquinha que deu no coração dessa moça, que deixou os batimentos que moravam no seu peito iguais aos do cursar do dia. No máximo, sentia uma pontada, tal qual um punhal cravado que insistia em lembrá-la a tal falta daquilo que nunca tivera na vida. A dor mesmo se revezava entre a direita e a esquerda da cama. Era a procura, no fundo, daquilo que ela ainda não teve, mas que a noite e o perfume emanado das flores dormindo permitiam-lhe sonhar um dia lhe pertencer.




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terça-feira, 10 de novembro de 2009

De chuvas por dentro






[...]
" Então finalmente começou a chover.

Antes uma chuva rala, depois tão densa que fazia barulho em todos os telhados.

Já sei, pensou de repente.Soube que estava procurando na chuva uma alegria tão grande que se tornasse aguda, e que a pusesse em contato com uma agudez que se parecia com a acidez da dor.
Mas fora inútil a procura. Estava à porta do terraço e só acontecia isto:
Ela via a chuva e a chuva caía de acordo com ela.
Ela e a chuva estavam preocupadas em cair com violência."





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segunda-feira, 2 de novembro de 2009

"Sobre trens, sobre vida..."



Tenho andado pouco por aqui.
Porém jamais me esqueço dos momentos únicos lendo amigos e pensando palavras e emoções
para deixar um rastro do que sou e sinto. É que nesse momento a vida tem me pedido muito. Muita luta, muita dedicação, muita paciência, muita insistência e persistencia... às vezes eu [ quase] acho que ela quer minha teimosia.
Bem que ela poderia ser mais amena, deixar passar algumas coisas, detalhes...
...Sem ter que me pedir pra provar o tempo todo se eu quero mesmo, se acredito, ou mereço...
(?)
Mas ela não quer ser suave, condescendente com nada.

Quer meus minutos diários, numa luta quase insana.

Por isso poucas visitas a vocês ou momentos de leitura. O tempo que sobra é de fechar os olhos e sonhar que vai passar, já vai passar...
O trem segue na trilha que "ela" escolhe, que "ela" determina.

Mas há de chegar onde eu quero, ah se vai... (vou aproveitar que estou aqui e lhes contar um segredo:)
Ela não sabe que eu tenho um pacto com o maquinista...
E vocês, por favor... não digam nada à ela, silêncio!

Afinal, de que lado estão?






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segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Nem sempre é só easy...






Deixe que diga o tempo...
Pois, só ele, mudamente surdo, é o único que, sem dizer nada diz tudo!









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sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Onde tudo seria bom

"...Às lágrimas sucedia-se, acompanhando os olhos inchados, um estado de suave convalescença, de aquiescência a tudo. Surpreendia a todos com sua doçura e transparência e, ainda mais, forçava uma leveza de passarinho. Dava esmolas a todos os pobres, com a graça de quem joga flores.
De outras vezes, enchia-se de força. Seu olhar tornava-se duro como aço, áspero como espinhos. Sentia que “podia”. Fora feita para “libertar”.
“Libertar” era uma palavra imensa, cheia de mistérios e dores. Como fora amena há dias, quando se destinava a outro papel? Outro, qual? Tudo era confuso e só se exprimia bem na palavra “liberdade” e nos passos pesados e firmes, no rosto fechado que adotava. À noite não dormia até que os galos longínquos começassem a cantar.
Não pensava, propriamente. Sonhava acordada. Imaginava um futuro em que, audaciosa e fria, conduziria uma multidão de homens e mulheres, cheios de fé quase a adorá-la. Depois, pelo meio da noite, deslizava para uma meia inconsciência, onde tudo era bom..."







sábado, 3 de outubro de 2009

Rio, loves you !!!

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Das Chagas







O medo de mostrar suas dores era tão grande que ela, desde cedo, tratou de escondê-las com uma aparente calmaria. Todo dia, antes de sair para o mundo, ela se vestia com uma tranqüilidade que, a princípio, não a pertencia de todo. Foi moldada para exatamente não revelar as chagas que a corroiam por dentro. Não queria ser vista com olhos de piedade,de comiseração, de condescendência . Queria mesmo era ser feliz, mesmo a custo de um esforço incalculável em tentar minimizar o trânsito de sentimentos e frustrações que por dentro dela circulava. Mas coisa ou outra não dava para escapar do seu controle. Eram as nuances que poucos se atinham a perceber: um olhar esquivo, a voz encolhida, o desenho da ruga. E assim, paramentada de sensações construídas, ela seguiu a vida inventando sua personalidade. Até se dar conta de que, para aliviar as feridas com o bálsamo necessário, a menina tinha que se despir. Mesmo que o espelho não hesitasse em refletir sua dor maior: a de ver realmente quem se é.
Fazia tempo que ela não se atentava para isso. Estava entorpecida pela própria invenção de ser o que ela na verdade nunca fora.




domingo, 20 de setembro de 2009

Eu que também sou Ela








Dentro de mim moram muitas. Inquilinas, vitalícias, turistas de veraneio. São diferentes mulheres que buscam a harmonia nas várias possibilidades de ser eu. Uma delas, no entanto, é residente fixa: uma menina de tranças que fixou moradia bem atrás dos meus olhos. Ela completa o giro da visão, sem ao menos me enviar uma imagem sequer do que é visto por ela. Na verdade, eu nem deveria estar revelando agora onde ela mora – como toda mulher precavida, a moça prefere valer por duas mantendo o sigilo e a discrição. Segue fazendo sentinela em silêncio sem distinguir o dia e a noite. Por quê? Ela simplesmente controla o tempo que se manifesta em mim. Se eu moro depois das tempestades, ela certamente está acima de qualquer nuvem. Em tempos imemoriais, sei que esta menina brigou muito para hoje brilhar mais forte no céu montado sobre minha cabeça. Ela é meu altar, meus melhores esboços e todo o desenho da aquarela das minhas possibilidades. Tenho o prazer de apresentá-los: eis a minha desconfiança.



E também a minha força.





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segunda-feira, 14 de setembro de 2009

De esperanças













Mas, conquanto não pode haver desgosto
Onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mal, que mata e não se vê;
Que dias há que na alma me tem posto
Um não sei o quê que nasce não sei de onde,
Vem não sei como, e dói não sei porque.

Camões





Eu fecho os olhos e não consigo mais ver estrelas. Uma fome que não sacia, sabe? Essa fome de tudo que eu nem sei ainda acabará comigo.




E eu acho lindo padecer de um mal que é um coração faminto de coisas

e de pessoas.


A esperança é um filho ainda não nascido, só prometido; e é disso que me alimento e me sustento todos os dias







sexta-feira, 11 de setembro de 2009

De Ensaios

Não escrevo o real. Nem tudo que se faz em palavras foi vivido. Tornar o real imaginável. Às vezes fica difícil separar o que me pertence e o que foi criado. Mas não quero uma verdade inventada. Não quero uma vida de palavras vazias que preenchem o espaço que eu mesma deixei. Quero a vida, justa ou não. Quero o caos, a turbulência, a dor. Quero o medo, quero a paz, o amor. Não quero transformar em vida o que foi palavra. Mas escrever em memórias as histórias que ensaiei.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

De segredos










as melhores palavras aparecem quando estou na janela do carro. são pensamentos que se perdem pra sempre. mas isso não seria resolvido com um lápis e caneta na bolsa. eu gosto de deixá-los em mim, como uma espécie de segredo...

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Do dia a dia...




"A espantosa realidade das cousas
É a minha descoberta de todos os dias.
Cada cousa é o que é,
E é difícil explicar a alguém o quanto isso me alegra,
E o quanto isso me basta"


[ainda Fernando Pessoa]

De Deveres








Eu tenho uma espécie de dever,
de dever de sonhar,
de sonhar sempre,
pois sendo mais do que
uma espectadora de mim mesma,
eu tenho que ter o melhor espetáculo que posso.


E assim me construo a ouro e sedas,
em salas supostas, invento palco, cenário,
para viver o meu sonho
entre luzes brandas
e músicas invisíveis.


(Livro do Desassossego - Fernando Pessoa)

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Da arte





A arte é a expressão mais antiga do ser humano.
Antes de falar o homem dançou.
Atraves do seu gestual transformou seus sentimentos em expressão.

Ao olharmos a arte com distanciamento histórico, podemos entender o nosso modo de vida.
Isso é cultura.

Sentimos necessidade de nos renovar constantemente.
Isso é nato no ser humano... a sua própria reinvenção.
Sem criarmos, não chegamos a lugar nenhum.
Sem o fazer, não realizamos aquilo que vai no fundo de nossas almas.
Então a arte é o ofício do artifice com a imaginação do criador. Tomamos a palavra "criador"
para Daquele que, para muitos dá sentido à tudo.
É o início e o fim, alfa e ômega. Então, criar é acumular a potência dos deuses!

Por que uma pessoa cria? Para quem ela o faz?
E por que além de fazer, ela faz com arte, maestria e engenho?
Para que se comunicar? Para que ser diferente?

Porque busca referenciar com símbolos, ícones, índices- o seu sentimento com o resto do mundo?

-É na criação que o artista exibe o seu olhar sobre o mundo.

Afinal, pensar não é existir?
















August Rodim e Marc Chagal

Casa Fiat de Cultura - Belo Horizonte, MG

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

De frutos ao chão






Passamos pelas coisas sem as ver, gastos, como animais envelhecidos:se alguém chama por nós não respondemos, se alguém nos pede amor não estremecemos, como frutos de sombra sem sabor, vamos caindo ao chão, quase apodrecidos...

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Um gosto de vinho na boca e um coração apertado pelas batidas que não consegue controlar.

Não lembro exatamente quanto tempo passei adormecida, imersa em sentimentos tão profundos, que nem eu era capaz de alcançá-los. Corro desesperadamente das lembranças que trazem teu cheiro. Do teu toque que me cala a alma e dos teus beijos que me roubam as palavras - ficaram os sonhos a me embalar na noite em espera. E se minto tão descaradamente aos teus olhos, é para que não percebas que eu me perdi na nossa própria e inocente brincadeira. Não quero que leia nos meus olhos o reflexo do nosso maior erro: o de atravessar a pequena linha que nos separava.

Quero que continues em mim não somente como a fé nos desesperados, mas como a descrença nos que em nada acreditam e nada esperam.

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Desejo que um dia me perdoes, mas não posso calar isso que rasga e atravessa o meu peito.
Vivo em escuridão da alma, e o coração pulsando sôfrego pelas futuras batidas que não podem parar.

Clarice Lispector

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Do amor e suas traduções












"amor", em latim, é uma palavra composta pelo prefixo de negação "a"(significa "sem") e pelo substantivo "mors" (que significa "morte").




Assim, "amor" tem o sentido de "sem morte" ou imortalidade.





Até nos esquecermos que o tempo passa quando estamos juntos.




Não é todos os dias que se encontra uma coisa destas...





terça-feira, 11 de agosto de 2009

De amores puros



...Claro que não poderia deixar de contar que ele ta correndo de novo a grama toda, atraz dos meninos que passam na rua na volta da escola,
que late de felicidade quando qualquer de nós chega e desce do carro,
que lê comigo o Estado de Minas de manhã antes de eu ir trabalhar, que não pode ver uma pipa voar solta no céu que late e pula pro alto como se pudesse alcançá-la...

...e é claro que eu me sinto feliz só por ele existir e inundar minha vida de alegria com essa presença que nada cobra, nada pede, só a minha
companhia e cumplicidade nas horas boas ou não, dias de chuva ou de sol...

...e nessa linguagem quase perfeita e sem palavras (porque quase sempre as usamos em vão)
é que percebo a festa dos sentidos, dos olhares, do toque, do cheiro, traduzindo cumplicidade
e parceria, silencio e lealdade... sem promessas, sem enganos, sem falseios, só amor...
...o mais simples e puro amor!!!

domingo, 9 de agosto de 2009


Ausência

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.


Carlos Drummond de Andrade

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

De pescadores, de ilusões...


Moço, peço licença
Eu sou novo aqui
Não tenho trabalho, nem passe, eu sou novo aqui
Não tenho trabalho, nem classe, eu sou novo aqui

Eu tenho fé
Que um dia vai ouvir falar de um cara que era só um Zé
Não é noticiário de jornal, não é


Sou quase um cara
Não tenho cor, nem padrinho
Nasci no mundo, sou sozinho
Não tenho pressa, não tenho plano, Não tenho dono

Tentei ser crente
Mas, meu Cristo é diferente
A Sombra Dele é sem Cruz, dele é sem Cruz
No meio Daquela Luz, Daquela Luz

E eu voltei pro mundo aqui embaixo
Minha vida corre plena
Comecei errado, mas hoje eu tô ciente
Tô tentando se possível zerar do começo e repetir o play

Não me escoro em outro e nem cachaça
O que fiz tinha muita procedência
Eu me seguro em minha palavra
É minha mão e minha lavra.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

De vazios




Então, ao vazio
Então, ao silencio.
— Abraça tua loucura antes que seja tarde demais —


Para olhá-lo, também eu precisava de certa loucura. Essa, que me indicava. A mesma a que me tenho negado em susto, movendo-me pelos labirintos coloridos desses interiores sempre previstos, embora absurdos. Não havia sol naquela tarde, nem cores caindo sobre os objetos. Eu não estava distraída nem tinha disfarce algum quando ele me olhou. Ele não tinha nenhum disfarce quando eu o olhei.

C.F.A

sábado, 1 de agosto de 2009

Sobre anjos












Hoje eu não consigo falar nem pensar
nada que não sejam eles...

Eu não suporto ver essas criaturinhas
que eu amo tanto sofrerem por motivo algum...

E um desses aí é o Dódi dos nove da cria da minha cachorra Magh ficou doente a uns tres dias...

Ele já ta enorme, já lê até o Estado de Minas... olha essa foto aí em cima...

Eu queria poder entrar dentro dele
e perguntar onde é que dói...

Trocar de lugar com ele que não sabe falar, não sabe reclamar nem dizer aonde é a dor

Já estamos no terceiro dia de cabeça baixa, antibióticos e injeções, mas nada de te ver correr atras de mim e dos meninos na grama,
latir como louco quando vê alguma pipa voar solta no céu...

Tudo aqui só tem alegria com eles e a amizade e o companheirismo desinteressado e totalmente fiel é que me dão muito da alegria que eu tenho de viver...

Meu anjo bom, melhora logo!!!


Nós todos te amamos e precisamos muito de você...

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Dos dias...



Depois, quando todos foram embora e as crianças já estavam deitadas, ela era uma mulher bruta que olhava pela janela. A cidade estava adormecida e quente. O que o cego desencadeara caberia nos seus dias? Quantos anos levaria até envelhecer de novo? Qualquer movimento seu e pisaria numa das crianças. Mas com uma maldade de amante, parecia aceitar que da flor saísse o mosquito, que as vitórias-régias boiassem no escuro do lago. O cego pendia entre os frutos do Jardim Botânico.

Se fora um estouro do fogão, o fogo já teria pegado em toda a casa! pensou correndo para a cozinha e deparando com o seu marido diante do café derramado.

— O que foi?! gritou vibrando toda.

Ele se assustou com o medo da mulher. E de repente riu entendendo:

— Não foi nada, disse, sou um desajeitado. Ele parecia cansado, com olheiras.

Mas diante do estranho rosto de Ana, espiou-a com maior atenção. Depois atraiu-a a si, em rápido afago.

— Não quero que lhe aconteça nada, nunca! disse ela.

— Deixe que pelo menos me aconteça o fogão dar um estouro, respondeu ele sorrindo.

Ela continuou sem força nos seus braços. Hoje de tarde alguma coisa tranqüila se rebentara, e na casa toda havia um tom humorístico, triste. É hora de dormir, disse ele, é tarde. Num gesto que não era seu, mas que pareceu natural, segurou a mão da mulher, levando-a consigo sem olhar para trás, afastando-a do perigo de viver.

Acabara-se a vertigem de bondade.

E, se atravessara o amor e o seu inferno, penteava-se agora diante do espelho, por um instante sem nenhum mundo no coração. Antes de se deitar, como se apagasse uma vela, soprou a pequena flama do dia.