terça-feira, 22 de setembro de 2009

Das Chagas







O medo de mostrar suas dores era tão grande que ela, desde cedo, tratou de escondê-las com uma aparente calmaria. Todo dia, antes de sair para o mundo, ela se vestia com uma tranqüilidade que, a princípio, não a pertencia de todo. Foi moldada para exatamente não revelar as chagas que a corroiam por dentro. Não queria ser vista com olhos de piedade,de comiseração, de condescendência . Queria mesmo era ser feliz, mesmo a custo de um esforço incalculável em tentar minimizar o trânsito de sentimentos e frustrações que por dentro dela circulava. Mas coisa ou outra não dava para escapar do seu controle. Eram as nuances que poucos se atinham a perceber: um olhar esquivo, a voz encolhida, o desenho da ruga. E assim, paramentada de sensações construídas, ela seguiu a vida inventando sua personalidade. Até se dar conta de que, para aliviar as feridas com o bálsamo necessário, a menina tinha que se despir. Mesmo que o espelho não hesitasse em refletir sua dor maior: a de ver realmente quem se é.
Fazia tempo que ela não se atentava para isso. Estava entorpecida pela própria invenção de ser o que ela na verdade nunca fora.




5 comentários:

  1. Néctar da Flor oferece mais um selo para os amigos. Dessa vez é o Selo Criativo que entra na roda dessa nossa felicidade. Não existem regras, apenas levem mais um dengo nosso e deixem a originalidade do seu blog falar por si.

    Beijos jogados no ar, sempre!


    -

    ResponderExcluir
  2. Muitas vezes nos moldamos, para escondermos de nós mesmo!
    Linda semana Andréa!
    bj

    * o comentário apagado era o mesmo, meu teclado com problema, comendo letras.

    Teclado comedor de letras,,,rsrsrsrs///bj

    ResponderExcluir
  3. Que confissão mais belamente escrita.
    Existe aqueles que gostam de se expor e de alimentam da piedade alheia e, aqueles que resistem à isso. Usamo, máscaras para não revelar o que temos por baixo, num esforço grande para ser feliz, como vc mesmo disse. Mas, um dia nos vemos sem estas máscaras e, nos surpreendemos. Talvez seja bom. Afinal, é doloroso mas a verdade revelada é sempre libertadora, de certo modo.

    Adorei o texto.

    beijos

    ResponderExcluir
  4. Que texto mais lindo, Andrea.
    Doce reflexão. Me encantou.
    Bom que passei por aqui.
    Beijos

    ResponderExcluir